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domingo, 31 de maio de 2009

Acordei Monstro

Foi uma fria de maio quando eu acordei monstro. Era estranho não ter mais aquela velha maquiagem da felicidade para encobrir o medo que eu tinha da minha própria imagem. Hoje eu me pergunto se vale de alguma coisa sabe o endereço de nossos monstros. O que se pode fazer? O que eu posso fazer??

Eu estive cercada de mentiras. De ilusões. Enquanto eu sorria para o mundo eu me destruia em tantos pedaços quanto pude. E agora aqui estou eu... Pisando no infinito da loucura. Pedindo sanidade para querer viver mais um dia. Pedindo que amanhã continue querendo respirar.

Eu já escrevi cartas de adeus. Eu já escrevi meu testamento. Eu já pensei em diversos motivos nobres para minhas covardias. Covardias de monstro. Eu peguei o carro até os ponteiros tremerem de tão rápido. Um acidente seria perfeito. Limpo. Ninguém precisaria saber que era premeditado. Eu queria me ausentar do mundo. Queria me dissolver no espaço sem deixar rastros. Eu queria desaparecer, queria evitar expor aqueles que eu amo ao risco do que eu sou.

Precisaria de muita coragem para ir embora sem dizer adeus de verdade. Eu pedi a fada branca que me levasse. E ela?? Ela só me deixou feliz por alguns instantes e depois nem uma miligrama mais depressiva. Nem ela... Nem ela será capaz de me dar coragem de ir. A fada branca é uma felicidade em pó que matariam muitos mais além de mim. E assim eu desisti dela.

Há um pouco de lucidez na loucura, um pouco de sobriedade na embrieguez, um pouco de vida naquele que quer morrer. Eu pensei em diversas maneiras de morrer sem deixar rastros. Era um conforto pensar que se eu não conseguisse a qualquer momento eu poderia simplesmente ir... Ir além... É covarde eu sei, mas eu não fui o covarde o bastante para deixar no que iria causar partindo.

Não há motivo nobre para ser covarde. Não há força na fraqueza. Não há beleza na derrota. Para aquele que perde a guerra não sobra nada além do campo destruido e dos corpos mutilados. Eu tenho ouvido tantas palavras assustadoras. Eu vejo tantas sombras. Transtorno. Depressão. Mania. Psicótico. Bipolar. Psicologo. Psiquiátra. Psico. Psico.Psico. Doença. Doença. Doença.

Talvez os medos que se tem na vida no fundo não passam daquilo que somos. Eu sempre tive pavor de ser como o meu pai. Eu sempre tive pavor de ser como minha vó. Eu sempre tive pavor de ser como meus tios e tias. Uns arruinando a vida dos outros. Eu sempre senti uma cruz maior que a minhas costas. Eu sempre achei que fossem só medos, só projeções, só... só... Então ela é real. As culpas são reais. É isso que eu sou. Monstro de mim mesma. Vilã de mim.

Amanhã eu vou continuar sendo essa imprestável que sou. Eu não sirvo para mais nada. Os remédios estão me ajudando mas eu não faço nada além de dormir, só quero dormir, só tenho vontade de dormir. Eu não vejo mais ninguém quando sento no carro para dirigir, mas não consigo dirigir de qualquer maneira... Qualquer coisa parece um esforço tremendo. Eu não tenho vontade de morrer. Eu não tenho vontade de fazer nada.

Se eu tivesse olhos claros da minha vó talvez eu pudesse expressar com aquele olhar transparente as tristezas da minha alma. Se eu tivesse olhos claros talvez tudo fosse diferente, mas eu tenho olhos amendoados e obliquos, olhos de vilã.

Ar... Dê-me ar...

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