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domingo, 2 de maio de 2010

Litost

Beatriz comprou uma carteira de cigarros e ficou amassando os cigarros entre os dedos. Não se lembrava da última vez que tinha fumado. Parar com o vício foi algo tão natural que ela se perdeu nas datas e no tempo. Nunca criei uma personagem que não fumasse, mesmo que todos elas de alguma forma sejam eu, todas são fumantes, compulsivas.

Traga-se o cigarro porque é fácil e, ao mesmo tempo, aliviante. Toda aquela fumaça que estava presa na garganta sai espiralando pela boca, como se nunca tivesse sido presa. Traga-se o cigarro porque, quase sempre, é muito difícil tragar a vida. Ela fica presa arranhando a garganta, provocando aquela tosse rouca e ressentida. Por isso todas as personagens fumam, mas Beatriz ainda não sabia se iria fumar ou não. Desde que ele tinha saído por aquela porta, ela não sabia mais o que fazer. Ela tentava, em vão, jogá-lo ao óbvio, mas nada era claro, nem seu desejo de fumar.

Foi-se para o mundo. Partiu. Simples assim. E de repente ela sentia aquela sujeira presa na garganta, uma vontade que vinha não-sei-de-onde de gritar. Quis dormir, não porque tinha sono, era a paz que ela buscava, mas se dormisse, sonharia com ele e acordaria na mesma agonia, tentando se agarrar nos fios de sonho que o levaram para seu inconsciente e puxá-lo para si, mesmo que ele, no fundo, fosse ela.

Beatriz sempre odiou azul, nunca soube o porquê, mas naquele instante era óbvio: era o infinito que a incomodava. O azul é a cor da tristeza porque ela nunca é finita. Ela podia não estar encarando a tristeza antes, mas ela estava encarando ela por dentro , nunca a abandonou. Mesmo quando eles estavam juntos e ela, sempre sorrindo, achando que nunca mais sentiria as coisas velhas que tinha no porão, a tristeza sempre esteve lá, azul e infinita, como uma camada de cor escondida em sua alma.

Ela fumou, enfim, não pelo tabaco e sim porque tinha medo. Sempre tivera medo, porque a felicidade sempre fora uma estação, o calor existia, mas as folhas de outono nunca tardaram a cair. Quando ele partiu pela porta, era das folhas de outono que ela tinha medo. Ela sabia que seu medo era um câncer que se dividia em pequenas metástases de sentimentos confusos. Ela sabia o quanto aquilo a consumia, mas como não ter medo de perdê-lo? Para ela, impossível.

Pela primeira vez na vida ela tinha estado em La Gloria e não queria deixá-la escapar por entre os dedos, mesmo que fosse impossível saber se ele também estivera em La Gloria com ela. As vezes isso a agoniava, porque nunca conseguira dizer a ele o quanto aquilo tudo era bom, algo nela pedia para ser mais comedida, mais equilibrada, mais adulta e mostrar o caos que ele provocava nela não parecia uma boa idéia, mas sempre se arrependia de engolir aquelas palavras que tão desesperadamente queria dizer e que esperava que ele lesse nos seus olhos.

Ela pensava em o quanto não sabia de nada quando terminou seu cigarro. Chorou. Era aterrorizante não saber de nada. Sabia que ele não acreditava em Deus e que ela, bem, ela nunca saberia em quem depositar sua fé, mas dos seus medos ela sabia cada um dos endereços.

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